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As minhas heroínas: Joanne Woodward, a mulher misteriosa

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.13

Depois dos meus heróis, Fredrich March, Robert Preston e o esboço para William Holden, faltavam as minhas heroínas. As actrizes-personagens que me fascinaram. 

Para começar, aqui vai Joanne Woodward, a mulher misteriosa. Misteriosa não no sentido de esconder um segredo ou de ser perita em jogos de sedução mas porque, sem se aperceber sequer, guarda em si imensas possibilidades: inteligência, paixões, afectos, sonhos.

Aqui a navegar neste rio estão dois filmes: The Long Hot Summer e Rachel, Rachel...

 

 

 Joanne Woodward é uma actriz que absorve e transmite a complexidade das personagens, como neste desafio, as três máscaras de Eve, fabulosa personagem e impressionante interpretação.

 

 

A sua voz altera-se do aveludado ao acutilante. Dir-se-ia da sua firmeza na postura e nos gestos que se trata de teimosia ou rigidez, mas em Rachel Rachel vemos a maior vulnerabilidade, a solidão e a depressão de uma professora que vive com a mãe numa pequena cidade do interior. Uma verdadeira obra-prima de Paul Newman, elaborada com a simplicidade só conseguida por uma grande sensibilidade.

 

Joanne Woodward e Paul Newman aparecem inseparáveis neste rio. Paul Newman filmou-a como mais ninguém, nesses anos em que o cinema parecia experimental, livre, solto, com a frescura de todos os inícios. São talvez dos poucos actores/realizador que escapam ao padrão cultural da época. Os seus filmes não nos surgem datados, surgem-nos surpreendentemente actuais. Digamos que acompanham as grandes mudanças culturais da época: as inseguranças, as fragilidades, os falhanços, os desencantos, os divórcios. A linguagem é a da realidade. Mas a perspectiva dessa realidade é poética, sensível, compreensiva. O olhar é o olhar de um adulto que enfrenta os desafios. Como no filme, Winning (1969) que nos revela a maturidade de uma época que é referida como irresponsável e de excessos mas que foi talvez a mais verdadeira e corajosa a olhar-se no espelho.

 

 

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publicado às 01:16

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

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publicado às 21:26

Valores humanos fundamentais: a bondade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.12

É a segunda vez que It's a Wonderful Life é colocado aqui a navegar, e talvez seja o filme mais visto nesta época de boa vontade. Em vez de bondade, poderia ter escolhido o valor respeito pelo próximo, ou mesmo empatia, colocar-se no lugar do outro, ou até mesmo maturidade. Mas aqui o nosso herói vai mais longe, coloca os outros à sua frente, um dia será a sua vez. Porque a vida lhe vai mostrando que há sempre alguém que precisa de ser salvo, apoiado, valorizado. Talvez porque só ele, a sua consciência de uma maturidade precoce, consiga ver o que os outros não vêem. É como se o seu papel na comunidade fosse maior do que um projecto individual: uma boa profissão, uma casa confortável, uma família. É o que a maior parte dos jovens sonha para si. Perfeitamente compreensível.

 

Não será assim para George Bailey. Vai adiar o curso e as viagens pelo irmão mais novo, aquele que num dia da infância salvara de morrer afogado. E vai adiar novamente esse sonho porque terá de ser ele a continuar o projecto do pai: um banco local de pequenos empréstimos, sempre no limite da sua capacidade mas uma base fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. O papel de George Bailey tornou-se, pois, mais abrangente, maior do que ele próprio.

 

 

Em muitos aspectos fundamentais da vida, este filme é muito actual. As interacções humanas estão a descaracterizar-se e as bases de coesão social estão a perder-se. É esse o mundo de Potter, o homem mais rico da comunidade que coloca o lucro e o poder acima de todas as dimensões da vida. Hoje o mundo pertence cada vez mais aos Potter, disso não há dúvida nenhuma. E não é apenas o lucro e o poder que habitam os olhos manhosos desse homem, é o ódio e o desprezo pelos mais fracos e desamparados. Será ele a dizer ao nosso herói que nada vale, está falido, o seu sonho morreu, que valia mais morto do que vivo.

E é precisamente este o pedido desesperado de George Bailey: mais valia não ter nascido. Desta vez será um anjo a resposta ao seu desespero. E a neve para de cair, ele deixa de existir, e será o anjo a acompanhá-lo nessa outra dimensão em que ele não existe.

E é nessa diferença entre o mundo onde ele não existe e o mundo que ele habitou, que percebe que a sua vida teve um sentido, uma influência benéfica: as vidas que tocou e influenciou, de forma vital, determinante. Tudo tinha valido a pena, as decepções, as contrariedades, os obstáculos, as dificuldades. Tinha prevalecido a bondade, muito mais forte do que todos os Potter deste mundo.

 

Reparem sobretudo na diferença entre esses dois mundos: o mundo dominado pelos Potter e o mundo estruturado pela bondade.

É esta a mensagem que hoje retiro deste Capra, e de novo com James Stewart. Capra é o realizador que mais percebeu e interiorizou a época natalícia, a época dos homens de boa vontade.

Todas as cenas têm um significado muito forte. As minhas preferidas são as que se referem ao projecto de George Bailey, o Bailey Park, as habitações confortáveis a baixo custo, permitir a cada um uma vida digna.

 

 

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publicado às 20:13

A maturidade do adulto, num filme dos anos 50

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.05.12

A minha caminhada voltou a aproximar-me deste rio. Talvez tenha ouvido de longe o seu sussurro, na voz da Marilyn: I can hear the river call… come to me … Desci, pois, até sentir o barulho suave da água sobre as pedras da margem. Um sorriso ilumina-me de repente: pelos vistos, não me consigo afastar muito deste rio.

  

Hoje pego no filme de Anthony Mann, The Tin Star (1957), para continuar o raciocínio que iniciei aqui. O título pode parecer provocatório: então é preciso ir a um filme dos anos 50 para ver o que é a maturidade de um adulto? Ou dito de outra forma: então já só vemos adultos nos filmes, e ainda por cima, dos anos 50? Mas a verdade é que um adulto é uma personagem cada vez mais rara, uma preciosidade. A maturidade do adulto é, pois, uma capacidade raríssima hoje em dia.

 

O cenário é muito típico dos filmes dos anos 50 no oeste: uma cidade temporária, de madeira, em que cada edifício está bem identificado. A preto e branco, como as próprias personagens, os seus valores e atitudes.  

Um ex-xerife céptico da justiça e dos homens dirige-se a uma cidade para recolher a recompensa da captura de um criminoso. Os habitantes da cidade recebem-no, paradoxalmente, de forma hostil. Todos à excepção de quatro personagens: o jovem xerife, o velho médico, o rapazinho meio índio e a mãe do rapazinho. Cada um por razões diferentes. O jovem xerife condicionado pelo ideal de justiça, o velho médico formado pelo ideal do respeito pela vida humana, o rapazinho pela sua natureza afável e ingénua e a mãe do rapazinho pela sua confiança primordial nas pessoas.

 

Como os melhores filmes do oeste dos anos 50, vemos desenrolar-se à nossa frente as diversas facetas da natureza humana: o medo e a desconfiança do grupo que funciona pela dependência mútua, mas também capaz de reconhecer os melhores de si e de por eles se sentir inspirado; a sensatez, tranquilidade e bondade do velho médico; a capacidade de empatia e confiança, da mulher afastada do grupo por preconceitos raciais; a afabilidade e ingenuidade do rapazinho; o ódio básico e desejo de poder, mais do que de vingança, do assassino; a avidez estúpida e primária do ladrão-assassino, sem capacidade de gratidão ou empatia; a empatia e gratidão do ladrão, irmão do ladrão-assassino.

 

Mas é à volta das facetas das personagens mais complexas deste cenário, o ex-xerife e o jovem xerife, que gostaria de desenvolver o tema da autonomia do adulto.

 

Vemos o idealismo do jovem xerife sobrepor-se ao bom senso e ao próprio instinto de sobrevivência. A namorada insiste com ele para largar aquela estrela de xerife, não quer transformar-se numa viúva, e lembra-lhe o que aconteceu ao xerife anterior. O jovem xerife agarra-se à estrela como a um símbolo de coragem, o ideal de justiça, manter a lei e a ordem. Embora a sua teimosia nos possa surgir como altruista e elevada, mesmo sacrificial, há qualquer coisa de imaturo nesta atitude, como um adolescente que quer provar aos outros a sua bravura e coragem. Ainda não estamos na autonomia do adulto.

 

O ex-xerife já perdeu as ilusões de justiça, da lei e da ordem, sabe tratarem-se de ideias que só raramente funcionam e, mesmo quando funcionam, deixam para trás morte e destruição. Ele é pela vida, nada se sobrepõe a esse valor. Nesse valor fundamental acompanha o velho médico. Só se afasta dele na questão da auto-defesa, na preservação da sua própria vida, não se expondo a riscos desnecessários. Mas no momento decisivo sabe qual é a sua prioridade: coloca a vida do rapazinho acima de qualquer justiça, lei ou ordem.

 

A maturidade do adulto está, pois, nesta personagem que nos surge tão imperfeita: cepticismo, desencanto e desilusões relativamente à natureza humana e ao funcionamento dos grupos que já viu como facilmente se transformam em bandos; preconceito racial que, como reconhece após conversas esclarecedoras com a mãe do rapazinho, reflecte a forma como foi educado; uma distância defensiva relativamente aos afectos, embora a nostalgia dessa harmonia familiar se mantenha.

 

Um adulto é capaz de se distanciar do condicionamento grupal, não está condicionado pelo desejo de aprovação social. Um adulto é capaz de reconhecer os próprios erros, auto-avaliar-se, corrigir a sua atitude. Um adulto é capaz de sentir a dor da perda, não a tenta compensar com o ódio destruidor ou o desejo infantil e primário de vingança. Um adulto está mais próximo da sua vitalidade e, por isso, é capaz de empatia e respeito pelos outros. Um adulto tem as prioridades no lugar certo, defende o valor primordial da vida: a vida do rapazinho é muito mais importante do que o respeito pela integridade física de um assassino de forma a cumprir a lei.

 

 

Apenas uma cena que descobri no youtube:

 

 

 

 

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publicado às 17:05

O que permanece, haja o que houver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.10

 

Sim, o rio continua a navegar, agora mais calmo, mais parece um lago, quase nos podemos ver nesse espelho azulado. A Marilyn continua a cantar na sua viola para o rapazinho, e o Robert Mitchum ainda apanha peixes do rio, que à noite assa na fogueira onde também aquece o café. Por vezes conversam enquanto o rapazinho dorme, mas mais parece que desconversam. São assim tantas vezes os diálogos entre homens e mulheres. Porque será?

Gostava de vos falar de um filme que nos inspirasse a todos para entrar no ano que agora começa. Repetimos este ritual de passagem todos os anos, mas na verdade trata-se de uma continuidade, como este rio. De qualquer modo, insistimos em iniciar um ano novinho em folha, abrimos uma nova agenda, fazemos uma lista de coisas a mudar... E no entanto tudo depende da nossa convicção interior, aquela que nunca muda, a que permanece igual a si própria, a sensação de saber quem somos, haja o que houver.

Que filme nos inspira assim? A convicção interior? Tudo o que permanece? A ver se o descubro entretanto nos meus registos da memória. A tempo de entrar num novo ano que é apenas a continuidade do ano que hoje termina.

 

Aqui vai um filme que vi há cerca de um mês e que pode exemplificar, numa das suas personagens, essa permanência, esse saber quem se é, haja o que houver. Neste caso também, sobre os seus sentimentos.

Written On The Wind, de Douglas Sirk, revela-nos de novo um homem simples, leal, íntegro, e de novo num Rock Hudson que veste bem essa pele. Tal como em All That Heaven Allows, trata-se de uma personagem que se organiza de forma segura em valores da permanência: família, amizade, amor, lealdade. E para quem os sentimentos são simples e claros, o amor e a amizade são sempre acompanhados da lealdade. O amor só é revelado quando as circunstâncias o permitem e não antes, porque respeita quem ama. Não se trata, no entanto, de um amor cego, observa e avalia as qualidades da amada. A ingenuidade não faz parte da personagem, é perspicaz e responsável. E nunca abandona o amigo, só o enfrentando para a defender.

 

O filme também nos mostra como a segurança aparente de um império familiar não é base da permanência. A permanência não é exterior, é interior, está dentro de cada um de nós. Tudo o que se ergue à nossa volta pode derrocar, só a nossa convicção interior permanece, os valores essenciais. A família Hadley cai na auto-destruição e na solidão. Os nossos heróis descobrem a segurança em si próprios e um no outro.

 

A linguagem do filme é fluída, bem ritmada, e sempre elegante, à Douglas Sirk. Não há demasiada informação, apenas a essencial. É um drama recorrente. Cada personagem leva a sua bagagem simbólica: em Kyle, a dependência, a eterna adolescência, a imaturidade, a super-protecção, a perda de objectivos, o tédio de viver; em Marylee, a rejeição de Mitch por quem tem um amor obsessivo, a natureza caprichosa e infantil, a sedução, a sensualidade; em Lucy, a auto-confiança, a autonomia, o profissionalismo, a capacidade de afecto; e em Mitch, as tais qualidades da permanência referidas no início.

 

Que este e outros filmes vos inspirem, queridos Viajantes, a encarar cada Novo Ano com a convicção interior da vossa permanência essencial! Que encontrem essa segurança dentro de cada um de vós!

 

 

 

 

 

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publicado às 22:40

O ponto de vista do morto, num filme de John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.10

 

Um homem que sempre viveu no território da lei do mais forte, a que aprendeu a adaptar-se e a nele sobreviver, ser surpreendido por um forasteiro formado em leis, que tinha sido abandonado quase morto por tentar defender uma dama, de um bandido temível e temido, Liberty Valance...

... sim, um homem assim ser confrontado com um idealista que acredita convictamente que é possível viver num mundo regido pela lei e pela ordem, pelos argumentos da palavra e não da arma...

... e não ser só isso, o facto deste forasteiro lhe vir alterar as ideias sobre as leis do mundo, foi sobretudo vir alterar-lhe os planos futuros... a Hallie apaixonar-se por ele... era quase inevitável, esta mania das mulheres serem maternais, protectoras... e terrivelmente românticas, aquela de ter arriscado a pele por uma dama... mas ele, por exemplo, pela Hallie, arriscaria tudo, tudo... será que ela não sabia isso?

É claro que sabia, vinha logo recorrer à sua ajuda providencial sempre que o forasteiro corria perigo. E o forasteiro tinha a terrível mania de se colocar em situações de perigo, como aquela de desafiar o Liberty Valance.

Mais uma vez salvei o forasteiro, mas só pela Hallie, tudo pela Hallie... vê-la assim inclinada sobre ele, solícita, só porque tinha um braço ferido... e o meu coração? Não viu ela, a ingrata, o meu coração a sangrar? Vá-se lá entender as mulheres, querem um homem e ficam com o rapazinho.

Afogar o desgosto em whisky, que mais pode um homem fazer em semelhantes circunstâncias? Era isso ou dar um murro no rival, mas isso estava fora de questão, salvara-o não salvara? Aí decidira tudo. Estupidamente romântico, decidira acreditar na possibilidade daquele forasteiro realizar esse sonho de implementar a lei e a ordem e de fazer a Hallie feliz.

Agora a casa já não fazia sentido, a casa para a Hallie. E a dor, a dor insuportável...

Erguer-se de novo e ainda ter forças para empurrar o forasteiro, tinha de assumir as suas responsabilidades, ser um homem, aceitar a nomeação. Afinal, se ensinara a Hallie a ler, agora tinha de lhe dar assuntos legíveis. Para isso ainda teria de lhe dizer quem é que matou o Liberty Valance. Seja.

Voltarão só para o meu funeral. A Hallie não me parece muito feliz. Pálida. Oh Hallie, talvez tivesse sido melhor tê-lo deixado morrer naquele duelo suicida com o Liberty Valance... Hallie... e vem com a flor de cacto que lhe ofereci um dia. Hallie, Hallie... preferiste esse rapazinho idealista, o que é que queres? Agora tens apenas fantasmas à tua espera, doces recordações...

 

Este é o ponto de vista do morto, o nosso herói. John Ford sabe que ele é o herói, o que abdica:

- do papel de herói, do protagonismo;

- e da Hallie, por amor, idealismo ou estupidez (com John Ford nunca se fica a saber).

O herói de John Ford não fica imune à vida, a vida fere-o, trespassa-o, fulmina-o. Às vezes apenas o desilude e cansa. Outras, revolta-o e leva-o à acção. Outras ainda, surpreende-o com a felicidade.

Aqui é o primeiro caso. O nosso herói escolhe o caminho mais difícil. E nós, ao vê-lo sofrer a perda dos seus sonhos, quase desejamos que ele não seja tão insuportavelmente nobre, que ele escolha a sua própria felicidade.

É provável que na minha primeira visão deste filme, e teria os meus trinta e tal anos, tenha simpatizado sobretudo com o papel do Jimmy Stewart. O homem idealista, o homem das leis e da ordem. O homem vulnerável e sensível. Hoje, surge-me como um homem essencialmente obcecado e egoísta, mesmo sem o saber, um imaturo, a quem as coisas acabaram por correr bem.

Se a América hoje, mediada pela lei e pela ordem, é melhor? Não sei. John Ford também deve ter formado uma opinião muito particular. A lei e a ordem, indeed! Afinal, não tivera o nosso herói que disparar sobre o bandido? O que teria sido do forasteiro sem essa ajuda preciosa, a lei da arma? O que pensaria John Ford quando colocou aqui este dilema? Secretamente, agrada-me pensar que o próprio John Ford tinha sérias reservas em relação à eficácia desta lei e ordem e que teria preferido, em certas circunstâncias muito particulares, mandar a lei e ordem às malvas e assentar um murro valente em certos sujeitinhos tipo Liberty Valance. Secretamente, também confesso que um murro bem assente resolveria muitos dilemas actuais.

 

Na verdade, já vislumbrei uma outra América, infinitamente mais livre e feliz. A América primordial, onde talvez tivesse sido possível iniciar uma história diversa. Onde a diversidade fosse possível naquela vastidão imensa... Mas o homem traz consigo a doença original e esquece o seu lado sublime.

 

 

 

 

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publicado às 14:37

A América poética dos "misfits" e das naves espaciais

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.07.10

 

Terminei um post recente a dizer que a linguagem do cinema consegue revelar mais do que a linguagem escrita. Como é que entenderíamos, por exemplo, o que o Pedro aqui nos diz dos inadapatados de uma forma tão poética, se não tivéssemos visto o filme?

Já coloquei a navegar neste rio os misfits da América, da América actual, onde não há espaço para encontrar um papel definido e viver uma história tranquila. O protagonista desse vale é um cowboy fora da época e da sua lógica intrínseca, já não tem território. Aliás, já não há lugar para essa liberdade de escapar à voracidade dos subúrbios, das habitações, dos carros, dos ruídos, do consumo, nem escapar à lógica do dinheiro, da droga e do sexo, numa alienação decadente.

N’ Os Inadaptados de John Huston há ainda uma ténue esperança, mesmo que aliada ao desencanto e à tristeza. Mas ainda não é a violência do vazio existencial desse vale invadido pelas pessoas. N’ Os Inadaptados podem estar a despedir-se, magnífica visão poética do Pedro, mas ainda é de liberdade e de espaço livre que estamos a falar. Os cavalos selvagens, símbolo maior dessa liberdade, são soltos das cordas que os prendem. A cena em que a rapariga começa a gritar, naquele terreno deserto e muito branco, onde Huston gosta de ver as suas personagens, é mesmo arrepiante. É talvez a cena mais forte do filme. N’ Os Inadaptados, como disse, há gritos, olhares tristes, pressente-se a solidão, mas ainda há espaço para esse grito e esse olhar.

Hoje, nesse vale, é o vazio, plana-se, sem consistência física, numa realidade que não se aceita e onde não se cabe. Por isso o protagonista fica fascinado com o cenário da equipa de filmagens: eu até me adaptava a este trabalho… sempre é mais fácil ser personagem do que viver um papel na vida real.

 

É certo que, olhando para trás, Marilyn sempre me pareceu uma personagem de filme. E se fosse mesmo honesta comigo própria, admitiria também sentir por vezes vontade de escapar à vida real e refugiar-me nos cenários poéticos dos filmes dos anos 60. Poderia ser até num filme de ficção científica, n’ O Dia em Que a Terra Parou, mas no original de 1951, não no remake. Contracenar com a Patricia Neal e com o actor inglês, Michael Rennie, que entra tão bem na pele de visitante extra-terrestre… O que eu gosto deste filme, vá-se lá saber porquê!

Aqui se prova que a tecnologia não é suficiente para conseguir uma atmosfera e construir uma obra de arte. A tecnologia - e mesmo a verosimilhança dos acontecimentos, e não me estou a referir à visita extra-terrestre -, não chega para criar um filme com esta frescura do olhar, esta atmosfera, e isso ficou bem visível no remake.

Já repararam aqui no cenário nocturno? As sombras, os espaços, o silêncio, a tranquilidade? E também só possível numa visão de futuro muito optimista, não acham? Onde é que hoje encontramos, numa cidade, esse silêncio e essas noites misteriosas e tranquilas, tão poéticas? E onde é que hoje deixariam o robô em paz, sem tentar invadir os seus segredos e testar os seus poderes? Sem invadir, logo no início, a nave estacionada no jardim público? Impossível…

De onde se conclui facilmente que os nossos são tempos bárbaros em comparação com os anos 50 (que, ainda por cima, é a década do cinema preferida do Pedro). Que só progredimos em tecnologia, mas não em poesia, em humanidade, em respeito pelo espaço de cada um. Pensando bem, não somos hoje muito diferentes de uma qualquer tribo bélica do período medieval. Querem ver? Os militares colocariam um perímetro de segurança muito maior do que aquele que vemos no filme, os jornalistas plantar-se-iam em volta da nave como moscas, com os seus microfones ligados todo o dia e toda a noite, debitando banalidades para as respectivas televisões, e ouvir-se-ia o barulho ensurdecedor de helicópteros como vespões assassinos a rondar o lugar. Além disso, a protagonista seria uma cínica oportunista que não conseguiria perceber a mensagem do extra-terrestre, entregando-o aos militares, e o filho, um miúdo caprichoso e egocêntrico, incapaz de qualquer empatia. Bem, se tentarmos seguir mesmo o que é plausível, esse encontro com o extra-terrestre nunca se poderia efectuar assim sem consequências imprevisíveis e fatais: contágio mútuo de um qualquer vírus fatal, por exemplo.

Neste cenário poético (sim, Robert Wise antecipa, a meu ver, a atmosfera poética dos anos 60), é ainda possível respirar sossegadamente durante uns tempos, ainda que breves. E contracenar com personagens que sentem, estão vivas, acordadas. Ainda conheci essa atmosfera, e é dessa atmosfera poética que mais sinto falta. Restam-me os filmes… já não é mau. E, afinal, mais vale esta fuga, estes intervalos, do que a que nos propõem hoje: consumo de entretenimentos vazios e sem alma, conversas estéreis e de circunstância, ruídos vários de gente ansiosa e hiperactiva, correrias sem objectivo definido, fogos-fátuos em cenários plastificados.

 

 

 

Patricia Neal: parece que este único Patricia Neal aqui a navegar, antecipou em pouco mais de um mês a sua despedida. Mas este será, para mim, o seu papel de sempre. Desde que o vi pela primeira vez que ofuscou o seu Vontade Indómita (papel brilhante e tão sensual) e o seu Breakfast at Tiffany's (elegante e cínica). É que aqui, nesse Dia em que a Terra realmente parou, Patricia é essa mulher calma e segura do Bem e do Mal, do certo e do errado, como se saber distingui-los fosse a coisa mais natural deste mundo, mas não é! São cada vez mais raras as pessoas que se movem neste mundo e se relacionam assim, neste mundo, com os outros seus semelhantes, com esta simplicidade e honestidade. Cada vez mais raras. Talvez por isso esta personagem feminina me tenha fascinado tanto. Tem a lucidez e a sensibilidade suficientemente afinadas para ver realmente que o namorado tinha as prioridades trocadas. Tratou-se de escolher o lado certo, o do homem que se tinha colocado numa posição vulnerável para avisar os terrestres. São estes papéis que agora mais me fascinam: pessoas simples, que agem de forma discreta, correcta e responsável, diríamos normalíssimas, mas que afinal, são mais do que extraordinárias. E, como disse, cada vez mais raras.

(Esta é uma simples homenagem de um rio... a 9 de Agosto)

 

 

 

 

 

 

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publicado às 00:34

A atmosfera poética do Cinema dos anos 60

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.10

 

Diz-se de quem ama o Cinema que é cinéfilo, mas eu nunca me incluí nessa classificação. Não me considero cinéfila e amo o Cinema.

Não pertenço a nenhum grupo de fãs, não colecciono filmes como alguns amigos, não assino revistas de cinema, não estou a par das estreias e desconheço os nomes dos realizadores e actores mais recentes, uma vergonha.

Mas posso dizer que amo o Cinema, que por ele me deixei fascinar e que ainda me hipnotiza, a sua atmosfera, a sua tonalidade, os diálogos, os sons...

Para mim é um mundo tão real como aquele em que me movimento, e tão vivo como este. Pode soar-vos estranho, uma excentricidade, mas aprendi imenso a ver filmes, aprendi por exemplo que não estamos limitados a esta mediocridade que nos rodeia, que há um mundo possível se o quisermos inventar, onde podemos respirar livremente, viver plenamente.

 

Desde os primeiros musicais que vi a preto e branco até aos épicos, aos westerns, às comédias, que o Cinema me prendeu para sempre. Entrou no filme, diziam de mim lá em casa, pois concentrava-me de tal forma que não ouvia ninguém.

 

Certamente que este To Kill a Mockingbird o terei visto na fase impressionável porque as cenas me pareceram familiares, aquela cidadezinha perdida no sul, os argumentos do advogado Atticus no tribunal em defesa do jovem negro, o ambiente, por vezes sufocante por vezes acolhedor, de um mundo isolado e dividido.

Uma das originalidades do filme é a utilização do narrador a recordar esse verão, em que era apenas uma rapariguinha de seis anos: Scout, filha de Atticus. É pelos seus olhos e das outras crianças, o seu irmão Jem e o primo Dill, que vamos acompanhando aquele caso terrível de ignorância, intolerância e racismo de uma comunidade fechada, no tempo da depressão.

O rapaz negro, injustamente acusado de violar uma rapariga branca, não terá hipótese com um júri formado apenas por brancos. O final já se adivinha, mesmo antes de o sabermos.

 

Atticus é a personagem-herói típica, da natureza dos heróis que apenas cumprem o seu dever, apenas assumem a sua responsabilidade. Dele dirá a sua governanta, sentada nas escadas à porta de casa com as crianças: Há pessoas que fazem por nós a parte desagradável, como o vosso pai.

 

Comoventes algumas cenas: o filho que insiste em acompanhar o pai quando vai dar a má notícia à família. A forma como o vê enfrentar pacificamente a agressividade do pai da rapariga branca. As duas crianças a atravessar o bosque e a ser atacadas por esse homem agressivo, e depois salvas pelo Boo, o homem que consideravam louco e até perigoso. A rapariguinha a pedir ao Boo para se despedir do Jem que dorme, a salvo, depois do ataque que lhe fracturara um braço. O Xerife a decidir não acusar Boo, uma vez que as contas estão saldadas, uma morte pela outra. E a frase mais poética: Seria como matar um passarinho.

 

Se pensamos que há inovações em Cinema, estamos muito enganados. Já foi tudo experimentado. A inovação está simplesmente na tecnologia, nos efeitos especiais. E mesmo que se tente melhorar a técnica, a atmosfera é irrepetível. Não sei explicar isto melhor. Havia uma qualidade no Cinema dos anos 60 que se terá perdido na década seguinte: uma frescura, uma verdade, uma simplicidade, uma emoção que não se sabe de onde vem...

Ou então sou eu que transporto essa vivência só minha para o filme e já não os sei distinguir...

 

Também na utilização do narrador filosófico que nos deixa mensagens, e que agora é frequente em diversos filmes e séries televisivas. Vemos Scout levar Boo pela mão para a casa onde ele vive, isolado, e dizer-nos: Só conhecemos alguém se vestirmos a sua pele por uns tempos... As crianças tinham descoberto um amigo, um aliado, em alguém que tinham considerado louco e perigoso, só porque era diferente.

 

Curiosidades: consegui identificar o Robert Duvall na pele de Boo! Muito mais jovem, claro. Não é fácil, pois o rosto altera-se,  mas há pequenas nuances para alguém muito atento.

Nesta personagem vi de certo modo o Eduardo Mãos de Tesoura de Tim Burton. E na própria atmosfera do filme, sente-se já a antecipação de realizadores actuais que revelam uma sensibilidade semelhante. É como se este Cinema lhes tivesse aberto o caminho, a essa nova sensibilidade.

 

Que mais posso eu dizer sobre esta pequena obra-prima? Que é mais um filme baseado num livro premiado com um Pulitzer. Com um guião muito bem concebido. E uma realização impecável. A fotografia, a montagem, os diálogos, a narração, a banda sonora... de tirar a respiração. E os actores, bem, perfeitos.

 

 

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publicado às 01:57

O pilar de uma família pode ser o seu elemento mais discreto

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 29.12.09

 

É uma das minhas personagens femininas preferidas, Elinor Dashwood, do Sensibilidade e Bom Senso de Jane Austen. Discreta, sensata, muito prática, adapta-se com incrível facilidade às circunstâncias mais desagradáveis e incómodas, sem se revoltar.

Pela força das circunstâncias, ver-se-á no papel de contabilista da famila, a gerir os recursos com firmeza. É o braço direito da mãe, que reconhece todo o seu valor e que a adora, desejando acima de tudo vê-la um dia feliz.

 

A mãe: esta é também a minha personagem-mãe preferida (de Jane Austen). Em cinema há outras mães, como a mãe corajosa d' As Vinhas da Ira, e a mãe benevolente do Quarto com Vista Sobre a Cidade. Mas esta mãe, Mrs. Dashwood, iimpressionou-me também pelas suas qualidades. Enviuva ainda relativamente jovem e nas circunstâncias mais adversas: o enteado herda a casa e a propriedade e, influenciado pela mulher gananciosa, dá-lhes uma ínfima parte da mensalidade que prometera ao pai moribundo. Mulher afável e educada, defende a dignidade da família e tenta proteger as filhas tanto moralmente como na sua felicidade. Tudo fará para as ver felizes, cada uma com as suas características próprias: a mais velha, tímida e sensata; a do meio, sensível e espontânea; a mais nova, inteligente e rebelde.

 

Esta história de mulheres, num mundo essencialmente masculino, por eles organizado e controlado, é muito poética e comovente. Todo o filme nos transporta para uma época de classes sociais delimitadas, de papéis sociais bem definidos, de rituais e salamaleques. Percebemos de imediato serem a expressão de uma organização muito bem concebida para proteger os homens, sobretudo os varões, e a dimensão das propriedades.

Vemos isso desde o início, como o irmão promete ao pai moribundo cuidar delas. E como a pouco e pouco nos apercebemos da terrível reviravolta da sua vida, de como se vêem repentinamente privadas da casa que sempre conheceram, dos seus objectos familiares e de todo o conforto. A mãe e a criança são as que revelam mais dificuldade de aceitação e de adaptação à mudança.

 

Mas nem todos os homens são gananciosos e volúveis como o enteado desta viúva. Aqui temos a oportunidade de conhecer um dos seus cunhados, Edward Ferrars, a que as mulheres e a criança se afeiçoam de imediato pelas suas qualidades: educação, bom-humor, generosidade. A atracção Elinor - Edward é quase inevitável, para grande alegria da mãe que ainda não tinha caído em si, na sua nova realidade financeira e social. Será de uma forma grosseira e cruel que a mulher do enteado a faz descer à terra: se o irmão não casar bem a mãe deserda-o. Ficamos desde logo esclarecidos e a nossa viúva também.

 

A nova casa: à primeira vista, pequena e acolhedora, mas sem o conforto a que estavam habituadas, como água quente ou aquecimento nos quartos. Mantêm dois empregados fiéis. E serão os vizinhos que, embora intrometidos, lhes irão suavizar o quotidiano e integrá-las socialmente na região. Bem-humorados, genro e sogra, o par mais estranho dos livros de Jane Austen, pelo menos dos que já li até hoje. A sua excentricidade acaba por se tornar calorosa. Participarão nas desventuras amorosas das raparigas, e tentarão sempre apoiá-las com a melhor das intenções: casá-las bem.

 

O Coronel Brandon: personagem que podia ter aqui uma tonalidade romântica, dado o seu passado infeliz, mas não é assim. O Coronel é um homem simples e prestável. Que fica desde logo fascinado pela rapariga sensível e espontânea. Dirá à nossa Elinor: Não a tente mudar. Conheci um dia uma rapariga assim.

Esperará pacientemente pela sua oportunidade, sem interferir no romance da sua amada com o galante e insinuante Willoughby.

 

Willoughby: uma decepção como homem adulto. Personifica a sedução imatura, de um eterno adolescente, com a imprudência a condizer. Insinua-se demasiado no coração da rapariga impressionável sem pensar nas consequências nem de como a pode estar a prejudicar. Deixa que a sua amizade adquira contornos sociais de uma familiaridade própria de um compromisso, de um noivado. Imprudência com consequências bem mais dolorosas para a nossa rapariga sensível que dificilmente recupera daquele desgosto e humilhação. Como nos surge subitamente frágil, tão comovente e frágil, naquela deambulação sonâmbula pelo jardim e nos seus passos errantes que a levam até ao lugar onde o tinha visto pela primeira vez... Willoughby, Willoughby, murmura quase num soluço...

 

Claro que gosto de finais felizes e este final não se desvia do meu ideal: uma capela de pedra, muito antiga, no poético campo inglês, sinos tocam alegremente, os noivos saem sorridentes...

 

O Realizador: Ang Lee consegue aqui a imagem mais poética de todos os filmes que adaptaram Jane Austen. Nos pequenos pormenores, na sua sobriedade e elegância. Também nas cenas no exterior, aqueles campos, a casa, o mar... Consegue uma tonalidade única, a lembrar-nos quadros de cenas campestres e, no entanto, tão reais...

E a música, magnífica... em perfeita sintonia.

 

Voltando ao pilar da família, à rapariga discreta e sensata. Pode parecer-nos pouco confiante, e até pouco visível, mas a sua base é o que de mais sólido existe, e aqui lembra-me inevitavelmente outra personagem feminina, Jane Eyre. O mais sólido é a realidade em que baseiam toda a sua percepçao da vida e toda a sua acção. Podem sonhar, quem não sonha?, mas nunca se distanciarão da realidade. Essa é a sua incrível força. E a base da sua confiança nas pessoas e na própria vida.

Elinor vê de imediato as qualidades daquele jovem. Não se ilude, acredita nele porque o conhece bem. Elinor aceita as pessoas como elas são, não as tenta mudar ou controlar. Aliás, a única coisa que controla aqui é a viabilidade financeira da casa, o orçamento familiar.

 

O mundo pode tornar-se repentinamente hostil, depende muito das circunstâncias. Num momento tudo pode estar bem, no momento seguinte dá-se a reviravolta. É por isso que Elinor é quem está melhor preparada para enfrentar a nova situação: encara a realidade, de frente, sem dramatismos. Procura o melhor ângulo, a melhor perspectiva. E começa a delinear um plano de acção. É assim que escolhe a casa possível, que melhor se adapta ao novo orçamento, é assim que vai gerindo a mesada. E tudo sem perder tempo considerando as contrariedades. É talvez a personagem que revela mais maturidade, digamos assim, a maturidade de um adulto. Qualidades magníficas, não acham? E cada vez mais raras num mundo de adolescentes ruidosos, caprichosos e inconsequentes em que o séc. XXI se está a transformar.

 

 

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publicado às 22:25

Sobre últimas oportunidades

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.12.09

 

Não sei porque é que este filme despretensioso me lembrou o Natal. Nem é uma comédia romântica. Talvez porque fala de amor e de família. Famílias desfeitas e sonhos transformados em desilusões.

Last Chance, Harvey. Um aeroporto e Harvey a entabular conversa com a passageira do lado. Que lhe diz sem-cerimónia que precisa de dormir para estar em forma quando chegar a Londres. Harvey em Londres, a fugir de um inquérito incómodo e, sem saber, da mulher que lhe irá salvar o dia. Harvey no hotel, sozinho, o resto da família reunira-se na casa da filha. Harvey a tentar salvar o emprego na agência de publicidade onde compõe jingles e a ouvir a frase, Last Chance, Harvey. Harvey no primeiro encontro com a filha, pouco à vontade, e a enfrentar a ex-mulher e o marido, e um casal que não voltara a ver desde o seu próprio casamento. Harvey a consolar-se no bar e a ser humilhado pela ex, a quem diz sempre me fizeste sentir como lixo. Harvey a ouvir a filha dizer-lhe que vai pedir ao padrasto para a levar ao altar. Harvey a dizer-lhe, quase a chorar, que não irá ficar para o copo de água, que só estará na cerimónia, pois tem um encontro de trabalho importante à sua espera.

 

Dia seguinte. Cerimónia e partida para o aeroporto. E aqui tudo se altera, o trânsito está entupido, o que implica um atraso providencial (para Harvey). Perde o avião e ainda ouve o veredicto do responsável da agência, Acabou, Harvey, foste dispensado. De novo a consolar-se no bar. E é então que repara na mulher que lê numa mesa ali perto. Mete conversa naturalmente, pede-lhe desculpa pela indelicadeza do dia anterior, quando lhe fugiu e ao questionário. Ela aceita mas continua a fixar o livro. Harvey, falador, não desiste. E explica-lhe que teve um dia péssimo. Ela diz-lhe o mesmo, o seu dia não fora melhor. Mas depois de o ouvir, confirma: o dele fora pior. Acabam a conversar como velhos conhecidos. E é mesmo isso que são, duas pessoas que se reconhecem, que se entendem, que dizem a verdade. E, no caso dela, sem papas na língua.

 

Paralelamente, vemos a vida desta mulher solitária, que aceitou quase naturalmente a desilusão do amor, e que só se lembra disso porque a mãe insiste em vê-la casada. Aliás, a relação com a mãe parece mais de dependência da mãe do que necessidade dela. Como dirá mais tarde a Harvey, na caminhada para a sua aula de escrita criativa (sim, Harvey pendurou-se, acompanhou-a à aula para continuar a conversar), Passei a ser a ocupação da minha mãe. Mas faço aqui rewind para o dia anterior dela: um encontro preparado por um casal de amigos, com um homem mais jovem, que ao ir ao balcão do bar pedir o vinho, acaba por encontrar duas amigas e esquecer-se dela.

 

Como é que ela salva o dia a Harvey? Ao ouvi-lo falar da filha e de como se estavam a afastar irremediavelmente, ao ter-se sentido sempre diferente delas, envergonhavam-se de mim, ao ver que já não fazia parte daquela casa, sentia-se um falhado, nem sequer fui um bom pai. É então que o convence a ir ao copo de água, que é o casamento da filha, tem de ir.

 

São estas últimas oportunidades, um encontro que parece casual mas que altera todo um percurso, a certeza de haver ligações familiares que são fundamentais, que equilibram e colocam tudo no seu lugar, e que há momentos em que temos de estar presentes, mostrar o nosso afecto genuíno, estar ali.

 

 

 

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publicado às 22:36


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